Por Redação - Radar 89 | 7 de fevereiro de 2015 às 1:27
Friedrich Engels, parceiro de Marx, e um dos fundadores do socialismo científico, demonstrou na sua genial obra A Origem da Familia, da Propriedade Privada e do Estado, que toda a exploração humana têm sua origem no surgimento da propriedade privada, inclusive a exploração do homem sobre a mulher.
O capitalismo, sistema baseado na propriedade privada dos meios de produção apresenta dados que comprovam esta tese. A última pesquisa, coordenada pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, batizada de ‘Mapa da Violência, revelou dados sobre o número de homicidios de mulheres: El Salvador lidera o ranking, com taxa de 10,3 vítimas para cada 100 mil mulheres. Na frente do Brasil ainda aparecem Trinidad e Tobago (7,9), Guatemala (7,9), Rússia (7,1), Colômbia (6,2) e Belize (4,6), aparecendo finalmente o Brasil com 4,4%, todos eles são superados pelos estados do Espirito Santo com 9,4 e infelizmente Alagoas, com 8,3%.
O Instituto Data Popular realizou uma pesquisa, divulgada em novembro de 2014, onde constanta que 3 a cada 5 mulheres já sofreram algum tipo de violência em relacionamentos.
Segundo estimativas do Instituto Europeu para o Controle e Prevenção do Crime, cerca de 500 mil pessoas são traficadas de países mais pobres para este continente por ano. Quanto ao tráfico de pessoas para fins sexuais, estima-se que 98% das vítimas em todo o mundo são mulheres.
De acordo com o IPEA, as mulheres recebem salários 28% menores que os dos homens, mesmo desempenhando a mesma função. Além de ocuparem os piores postos de trabalho em condições de maior exploração e precarização. Segundo a ONU, 70% do trabalho realizado no mundo é feito por mãos femininas, mas as mulheres recebem apenas 10% do salário mundial. Sem falar das tarefas domésticas que acabam dificultando o ingresso da mulher no mercado de trabalho.
Para a burguesia, a imagem da mulher está diretamente ligada com a sua sexualidade, e para tanto as grandes empresas de publicidade se valem do apelo sexual para vender seus produtos, justificando e, mesmo que inconscientemente, apoiando a prostituição, tornando a mulher um mero objeto sexual. Não é raro ver em programas de TV a exibição do corpo feminino como forma de aumentar a audiência.
A hipocrisia da sociedade capitalista quer ignorar os mais de 1,2 milhão de casos de aborto que anualmente são realizados em clínicas clandestinas, por conta de dogmas e regras estabelecidas pelas igrejas, ferindo a laicidade do Estado e colocando em risco a vida dessas mulheres.
A verdade é que a tão propagandeada emancipação feminina não aconteceu, pois o capitalismo ao abrir as portas do mercado de trabalho às mulheres o fez não para emancipá-la, e sim para aumentar seus lucros, mantendo dessa forma todos os pesados afazeres e responsabilidades domésticas e de educação dos filhos sobre os ombros das mulheres, que vivem assim uma dupla jornada de trabalho.
Toda esta situação, demonstra que a luta pela emancipação da mulher está totalmente ligada a luta pela emancipação humana do capital. Obviamente todos nós, homens e mulheres, devemos lutar pela ampliação dos direitos femininos. Entretanto, é preciso perceber que enquanto houver capitalismo, haverá exploração contra a mulher.
O fato é que a origem da opressão contra a mulher vem de uma relação social determinada por uma relação econômica, e sua manutenção acontece sobre essas mesmas bases. A submissão da mulher, pacificamente ou não, a uma relação de violência, está determinada, em última instância, por uma situação econômica. Uma mulher pobre, com filhos, sem formação profissional ou mesmo sem estudo, que não possui nada, nem condições de vender sua força de trabalho, está muito mais vulnerável a permanecer em uma relação onde sofra violência.
A realidade alagoana não foge a regra, os altos índices de violência contra a mulher, tem a mesma origem e são reflexo do atraso econômico do estado, decorrente de séculos de superexploração dos latifundiários. O fato de sermos uma das capitais mais violentas contra as mulheres, reside na mesma origem do fato de sermos campeões em anafalbetismo, em termos uma das piores distribuição de renda do Brasil, em termos a nossa capital como a terceira cidade mais violenta do mundo.
É necessário lutar pela ampliação dos direitos da mulher, o combate a violência contra a mulher deve ser eficaz, trabalho igual e salário igual para homens e mulheres, construção de creches, contra a mercantilização da imagem da mulher. Mas, acima de tudo, devemos entender que a luta pela libertação da mulher é principalmente uma luta contra o capitalismo e pela emancipação humana.
Magno Francisco da Silva
Filósofo e professor da Universidade Federal de Alagoas